
Há muitos críticos que dizem que a Ná Ozzetti é a maior cantora do Brasil na actualidade porque sintetiza numa só voz o que de melhor têem as grandes cantoras do Brasil. Eu não sei. Não me interessa para nada saber quem é a melhor, o melhor! Como todos sabem, acho que a competição é inimiga da Arte. Seja como for, além de a ter por boa amiga com quem já passei muitos bons e alguns maus momentos nas duas margens do Atlântico, é uma cantora abençoada e, apesar de não ser muito conhecida em Portugal, desejo-vos que a vão descobrir porque ela é um assombro. Tentem ir a www.naozzetti.com.br e descubram uma voz surpreendente. Agora, a Ná acabou de gravar um cd com o mágico André Mehmari onde gravaram pérolas tão preciosas como "Rosa" de Pixinguinha. Mal posso esperar pra ouvir.
Quando falei em maus momentos, estava a lembrar-me de uma vinda da Ná a Portugal cantar a um qualquer encontro de Lusofonia em Serpa onde raras vezes me senti tão envergonhado. A coisa chegou a pontos de a Ná perguntar onde era o camarim e o produtor do espectáculo responder que no contrato ninguém tinha pedido camarim. Um amadorismo e um aproveitamento que são seguramente as piores características que o mundo da música conhece em Portugal. Eu senti-me completamente aflito e tentei remediar o irremediável! Foram momentos de grande angústia!
A Ná deu-me o privilégio de gravar a "Canção em Braille" que eu escrevi para uma música que o Pedro Jóia tinha feito. É uma música tão vigorosa que eu quase lhe encontrava uma textura, daí ao braille foi um passo pequeno. Fala disso mesmo, de ver e não ver, de cantar por não se ver. Parte de um costume que existia no Brasil onde os nordestinos furavam os olhos de um pássar, o assum preto, para ele não fugir para longe das suas casas e assim, partilhar o seu canto triste com os habitantes da moradia. É\um costume horrível que motivou uma das mais belas canções de Luiz Gonzaga e Humberto teixeira e que encontrou versão definitiva no cd ao vivo "GAl FA-TAL" que a Gal Costa gravou no início da décadad de setenta e que se mantém como um dos grandes marcos da sua longa e brilhante carreira.
CANÇÃO EM BRAILLE
Letra: Tiago Torres da Silva/Música: Pedro Jóia
Onde os meus olhos
porque cantam assim?
um assum preto
dentro de mim
mil vezes a sina
do gingar da tua retina
que não vai lembrar
que eu também já fui bailarina
mil vezes o fado
de manter os olhos fechados
só para não ver
a menina do olho errado
quando os teus lábios
na minha mão pousaram
todas as linhas se alongaram
uma carícia
o quebrar de um segredo
deus escondido em cada dedo
onde os meus olhos
porque cantam assim?
um assum preto
dentro de mim
a linha da alma
um destino transparente
lua que se apaga
pra nenhum quarto crescente
és um sol em vão
quando o teu olhar se nega
a ver o sertão
na noite de uma ave cega
quando os teus lábios
nas minhas mãos pousaram
todas as linhas se alongaram
uma carícia
o quebrar de um segredo
deus escondido em cada dedo
8 comments:
Li a sua crónica no JL sobre os blogs, e creio estarmos de acordo em quase tudo.Ter-se-á esquecido o Tiago, se calhar dos blogs, como o meu, em que para além de 'darmos a cara', escrevemos coisas do nosso viver, expondo-nos até ao tutano...Mas, de qualquer forma, o Tiago expressou os aspectos principais. Só não concordei com uma coisa- eu acho que o mundo dos blogs é o introito duma nova sociedade de informação, e por isso não desaparecerão tão cedo...
Quanto ao seu novo post...que dizer de mais uma pérola?
Tenho de procurar algo dessa cantora que não conhecia...
Um abraço
Valéria Mendez
Pois eu também acabo de ler o artigo que publicou no JL de 24 de Maio de 2005. Perante tais afirmações, não resisti a fazer-lhe um convite! Quando tiver oportunidade, não deixe de visitar http://www.miseenabyme.blogspot.com
Os meus cumprimentos e parabéns sinceros pelo Canções do Tiago.
Até breve!
Caro Tiago, venho retribuir a sua visita ao meu ninho, estando perfeitamente descansado no sentido de não correr os riscos do meu primo assum preto... E informá-lo que tomei a liberdade de adicionar o seu blog aos meus blogs amigos, podendo assim visitá-lo com maior frequência, e, em especial, por ser um fã quase incondicional da MPB. Estou grato a Valéria Mendez por tê-lo conhecido neste meio. Um abraço do Pássaro Distante
tresli a croniqueta do JL e fixei-me na sua ultima frase:
"de mentira em mentira o poder dos blogues ir-se-à dissipando (...) e perderemos uma oportunidade extraordinária de trazer o poder da liberdade,blá,blá,blá"
pois é!
mas alguns de nós ainda assim temos esperança de vir a ser comprados pelos gajos da time-warner por um milhão de dólares, e de (des)esperança, como se sabe, vive o homem até que morre,,,
Tem aqui um belissimo blog, só o descobri hoje. Mas voltarei certamente. Bem haja.
Carissimo, ñ se trata de zurzir, apenas quis realçar a opinião da Valéria (que tem um blogue extraordinário!):
"eu acho que o mundo dos blogs é o introito duma nova sociedade de informação, e por isso não desaparecerão tão cedo"...
O Tiago afirma justamente o contrário na sua crónica do JL, e com isso não nos identificamos, tal como o não podemos fazer em relação à "escrita deficitária,repleta de errus ortigráficos, imaginário pobre e um vocabulário mais ainda"
Não será isso o reflexo do país que temos?,, o único aspecto relevante que conta, penso eu, é a liberdade de expressão de ideias. Se as ideias são más ou boas ou assim-assim, fica tb aos eventuais leitores a liberdade de as aceitar ler ou não.Por mim, que adoptei um estilo de crítica radical, penso hoje como o Kepler pensou na "harmonia do Mundo": "perdoai-me mas estou feliz,se vos zangardes eu perseverarei"
por isso a assinatura:
Xatoo (o email está no blogue)
Estimado Tiago,
Procurei uma forma de o contactar mas, visto não ter encontrado outra, deixo-lhe aqui as minhas mais sinceras felicitações pelas palavras que escreve e que ganham forma na voz dos grandes intérpretes.
A propósito, tinha mais uma coisa que gostava de lhe dizer, mas pela via cibernética torna-se difícil.
Se quiser, dê sinais...
Gostaria de parabenizá-lo pelo blog e postar aqui a letra de Assum Branco, de José Miguel Wisnik, gravada por Gal Costa e Mônica Salmaso, entre outras. Um abraço, Luiz - Rio de Janeiro.
Assum branco
(José Miguel Wisnik)
Quando ouvi o teu cantar
Me lembrei nem sei do quê
Me senti tão só
Tão feliz tão só
Só e junto de você
Pois o só do meu sofrer
Bateu asas e voou
Para um lugar
Onde o teu cantar
Foi levando e me levou
E onde a graça de viver
Como a chuva no sertão
Fez que onde for
Lá se encontre a flor
Que só há no coração
Que só há no bem-querer
E na negra escuridão
Assum preto foi
Asa branca dói
Muito além da solidão
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